voices 1.0

  Michael, querido... Por que você fez isso com os seus coleguinhas? - perguntou a mãe, pela terceira vez, tentando arrancar uma resposta que fizesse sentido.
 O garotinho estava sentado numa poltrona em frente aos seus pais que estavam no sofá. Os adultos resolveram o destrancar do quarto para fazer algumas perguntas. Não que mudaria alguma coisa, eles já decidiram que o pequeno iria fazer algum tipo de terapia.
 Mas ele disse que não eram meus coleguinhas! - o garotinho gritou. Como seus pais não conseguiam entender uma coisa tão simples?
Ele quem, criança? Foi algum professor, alguma outra pessoa? - perguntou o pai dessa vez.
Não, foi a voz. A voz me disse que eles mereciam alguma coisa porque eles estavam falando coisas ruins sobre mim. E eu não gostava das coisas que eles falavam, então eu dei o suco pra eles.
 Seus pais trocaram um breve olhar de pânico. Voz? Suco? Psicólogo. Agora.
Okay... Agora vem aqui, a gente vai dar um passeio, ta bom? - a mulher falou com uma tentativa falha de voz mansa e tentou pegar na mão de seu filho, porém esse se desvencilhou com uma expressão de horror.
Não. Não quero sair.
Ah, por favor, seu pirralho, vamos logo. - disse o pai, esticando o braço para agarrar o menino.
Não! - Michael gritou e saiu correndo pela sala, indo em direção á porta.
 Ele escutou seus pais mandando voltar, mas ele sabia o que iria acontecer, eles iriam tentar o consertar. Ele não estava quebrado, não precisava de conserto. Foi o que a voz disse.
 Seus pézinhos o guiaram até o parque que ficava perto de sua casa. Costumava ir ali quando seus pais estavam no trabalho, como é uma rua calma, não tinha perigo.
 Sentou-se no banquinho que ficava na frente do escorregador, respirando fundo, tentando se acalmar. Escutou alguma voz fungando e achou que era a de sua cabeça - mas ai escutou de novo, e achou que vinha de atrás do brinquedo em sua frente, então foi ver.
 Era um garoto, parecia ter a sua idade, talvez até mais novo. Ele era loiro e estava encolhido e tremendo, chorando.
 Michael ficou triste também, não gostava quando as pessoas choravam.
Ei, menino, por que você 'ta chorando?
 O garotinho se virou rapidamente, assustado. Arregalou os olhos mas não abriu a boca.
Olha, eu 'to triste também, mas você não precisa chorar, ok? Eu sou seu amigo! - disse sorrindo - Eu vou te proteger de tudo que te faz chorar.
 O loiro continuou um pouco encolhido, mas parecia mais calmo.
Ah, eu sou o Michael, e você? - perguntou com uma risadinha. Ficou esperando o outro responder, mas esse continuou chorando.
 Eles ficaram num silêncio até que o loiro abriu a boca, mas antes que qualquer palavra pudesse sair de sua boca, Mickey sentiu sua blusa ser puxada por trás e soltou um grito, tentando se soltar - mas parou quando escutou a voz furiosa de seu pai.
Você saiu correndo de casa só para machucar mais uma criança? Pra casa, agora! - berrou, fazendo o garotinho sair correndo de volta, mas não antes de se virar e ver seu pai aparentemente se desculpando com o loirinho.

  Anos se passaram e Michael foi expulso de uma escola por botar fogo no banheiro masculino. Depois em outra por bater em alunos. E várias outras coisas em que não foi pego. Com dezesseis anos, a voz continua firme e forte em sua cabeça, porém, cada vez mais desapontada; tudo que ele já conseguiu fazer até hoje é levar pessoas para o hospital. Nada... grave. Começava a pedir coisas mais e mais sérias, porém Michael sempre falhava. E sempre chorava muito quando a voz o torturava, dizendo que ele não é capaz de fazer nada certo, que ele é inútil e ele acreditava. Então tentava mais e mais, porém tinha sempre alguma coisa o impedindo, ele só não sabia o que ainda. Mas assim que descobrir, vai destruir essa coisa. Não importa o que seja.
 E mesmo depois desse tempo todo, ainda pensava no garotinho que estava chorando. Ele havia prometido que iria protege-lo, porém se mudaram no dia seguinte e Michael nunca mais o viu. Não que isso tenha o impedido de fazer amizades novas, ele conheceu alguma pessoas, mas só Calum quis ser seu amigo. Ele não sabe das vozes, Michael tem medo de que ele o ache louco.
Michael? Ei! - escutou alguém o chamando. Virou a cabeça rápido demais e sentiu tontura.
Desculpa, cara. Eu fiquei meio perdido. - disse ao seu amigo, lembrando que estavam no corredor da escola.
Você 'ta muito lerdinho esses dias. Aconteceu alguma coisa? - perguntou um Calum preocupado, colocando a mão no ombro do amigo.
Não sei, talvez eu precise dormir mais. - deu de ombros.
Ok. Ah, você perdeu a festa ontem, foi muito boa! Eu... - a esse ponto, Michael não estava mais escutando. Não gostava muito de festas e já sabia de cor o caminho que as histórias de seu amigo levava.
 Acenava a cabeça de vez em quando, murmurava alguma coisa porém sua atenção estava focada em um garoto passando no corredor. Ele era muito bonito, um pouquinho mais baixo que Michael, tinha cabelo loiro e estava baixo com uma franja. Seu rosto... Não! Não chegue perto desse rapaz, ele só vai atrapalhar. Mas por quê? Ele parece apenas um garoto normal. Ele é perigoso para você. Mantenha distância. Deu de ombros.
Ei,  você nem me escutou, né? - Calum perguntou, fingindo estar bravo.
Você sabe que não. - respondeu rindo, recebendo uma língua de seu amigo.

 Depois da escola, os dois costumam ir um para casa do outro, mas o moreno disse que teria que sair com a sua família e deixou Clifford sozinho. Não que ele visse algum problema nisso, gostava do tempo em particular. Assim que pisou em sua casa, não se surpreendeu em vê-la vazia. Seus pais estavam trabalhando, nunca ficavam em casa.
 Michael subiu para seu quarto e se jogou na cama. Estava exausto da escola. Não queria jogar video game mas também não queria ficar parado e decidiu que não queria ficar sozinho. Mas com quem passaria o resto do dia? Ficar a sós com sua mente não parecia tão legal. Colocou outra roupa, pegou seu celular com seus fones de ouvido e saiu de casa, indo em direção da praça. Gostava de ficar lá.
 Sentou-se no banco de sempre e ficou observando algumas pessoas que passavam. Tudo estava tranquilo demais. E isso não é muito bom pois seus pensamentos sempre voltam para o mesmo menininho que chorava. Onde estaria agora? Teria sua aparência mudado? Ficaria bravo se visse Michael e percebesse que nunca realmente o protegeu? Colocou seus fones e sua música favorita estava tocando, o que o fez sorrir. Uma sensação de déjà vu o atingiu e seu coração acelerou. Franziu o cenho quando olhou para frente e viu o mesmo menino do corredor com expressão triste, sentado num banco que ficava um pouco mais em sua frente. Ele estava com fones também. Michael sentiu que deveria animar o dia de alguém, aliás, eles são da mesma escola, talvez poderiam ser amigos. Levantou de onde estava e foi andando em direção do garoto triste quando no meio de sua caminhada, escutou a voz. Não chegue perto. Lembre-se do que eu disse, ele é perigoso. Balançou a cabeça.
— Por quê? - bufou quando nada veio - Já estou cansado de ficar sem respostas suas, então eu mesmo vou responder. - e continuou sua caminha ao outro lado da praça, tentando ao máximo ignorar os pedidos raivosos da voz.

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